Unidade de Conservação e a Proteção das Áreas Protegidas

            O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), define Unidade de Conservação como: “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. Classifica-as em dois grandes grupos:

- Unidades de Proteção Integral, com o objetivo de preservar a natureza, admitindo apenas o uso indireto dos recursos naturais. Fazem parte desse grupo as seguintes categorias: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Refúgio de Vida Silvestre e Monumento Natural.

 - Unidades de Conservação de Uso Sustentável, com o objetivo de promover e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais. É integrado pelas seguintes categorias: Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável e Reserva Particular do Patrimônio Natural.  (IBAMA, 2002)

            Uma pesquisa realizada pela Nupaub (Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Área Úmidas), indicou que em cerca de 88% do entorno das Unidades de Conservação vivem populações tradicionais e não tradicionais, que de alguma forma, se relacionam com estas unidades. (ARRUDA,1997) No estado de São Paulo, dados do Instituto Florestal mostram que existem populações tradicionais em praticamente todas (73%) as unidades restritivas de grande porte.

            O conceito de População Tradicional, assim como a atribuição de seus direitos em áreas de preservação, foi um dos pontos de maior divergência entre as partes envolvidas nos debates sobre a regulamentação da Lei 9.985. O texto original, vetado, trazia a definição de populações tradicionais em seu art.2º, inciso XV, como sendo:

”Os grupos humanos culturalmente diferenciados, vivendo há, no mínimo, 3 (três) gerações em um determinado ecossistema, historicamente reproduzindo seu modo de vida, em estreita dependência do meio natural para sua subsistência e utilizando os recursos naturais de forma sustentável.” (Lei Federal nº. 9.985, de 18 de junho de 2000).

 

TERBORGH e SCHAIK (2002) são defensores clássicos da proteção integral das áreas protegidas, seus argumentos perpassam pela aceitação da idéia de que a humanidade tem a obrigação moral de dividir o planeta com outras formas de vida, e que esta prática não ultrapassa 5% da área total do Planeta.  Acreditam que a forma mais adequada para garantir este objetivo é a criação de áreas protegidas que excluem a população humana e conserva a biodiversidade. Para esses autores é inadmissível a permanência de pessoas dentro de parques (Unidade de Conservação de Proteção Integral). O argumento que permeia tal decisão não deveria necessitar justificação, visto  que estes locais são um refugio da natureza, e por isso, as pessoas são excluídas. Os benefícios que estas áreas podem gerar para a coletividade é superior ao ônus que recai sobre uma minoria existente no entorno ou no interior das mesmas, ampliando a máxima de que a necessidade de muitos supera a necessidade de poucos.

            TERBORGH e PERES (2002), ainda citaram que o problema mais intratável enfrentado pelos administradores dos parques é a presença de residentes humanos dentro das áreas protegidas e esse problema é uma bomba-relógio que afeta cerca de 70% dos parques do mundo em desenvolvimento.

            CÂMARA (2004) questiona o significado contemporâneo de conservação e afirma:

Conservação para o desenvolvimento significa que devemos subordinar o permanente ao temporário... Na verdade conservação sempre significou: proteger a natureza. De quê? Claro está, do Homo sapiens. “É tão simples quanto isso”. (CÂMARA, 2004,p.9)

 

            GUHA (1997), afirmou que cinco grupos alimentam a conservação da vida selvagem no Terceiro Mundo: em primeiro lugar estão os turistas, por prazer e recreação, o segundo são as elites governantes, em terceiro estão às organizações ambientalistas internacionais, o quarto é o dos funcionários dos parques, o último grupo são os biólogos.

                                                                       “Para cumprirem seus objetivos de conservação, as UCs, além de implementadas, precisam ser integradas à sua região, seja pela necessidade de evitar o isolamento genético de suas populações e comunidades, seja pela necessidade humana de sua inserção no desenvolvimento econômico, cultural e social, para aceitação e reconhecimento de sua importância. Neste contexto, as sua áreas periféricas desempenham importante papel, tanto para proteger a unidade dos usos externos, como para promover atividades produtivas que sejam culturalmente aceitas, permitam a manutenção econômica das comunidades humanas e mantenham os recursos essenciais e o funcionamento do sistema.” (HAUFF,2004, p.33).

COLCHESTER (1997), seguindo uma visão mais relativizadora, diz que enquanto os conservacionistas ignorarem as dimensões sociais, os planos de proteção ambiental continuarão vendo sucumbir seu projeto de conservação e cercar a biodiversidade é ineficaz se for menosprezada a realidade social e política da região e das populações que vivem dentro ou no entorno dos parques.

As comunidades locais enfrentam 4 problemas maiores e inerentes ao enfoque clássico conservacionista. Em primeiro lugar, esse conservacionismo pôs a preservação da natureza acima dos interesses dos seres humanos. Segundo, sua visão de natureza foi elaborada com base na noção de mundo selvagem, em oposição aos povos tradicionais. Em terceiro lugar, os conservacionistas procuraram no Estado as bases de suas ações de regulação das interações humanas com a natureza, E, por último, as percepções dos conservacionistas acerca dos povos tradicionais são marcadas por preconceitos com que esses povos se defrontam em outras instâncias”.  (COLCHESTER,1997).

 

            Para LEUZINGER (2002) a prática do “cercar para preservar” é um tema muito contraditório e que onde a prática em diversos países demonstra que as populações tradicionais são partes integrantes nas áreas protegidas dos ecossistemas, não um elemento exótico à natureza e que sua retirada degrada as áreas e prejudica a sobrevivência das espécies que nela vivem. Um exemplo citado pelo autor foi a retirada forçada da população Masai, no Quênia. Verificou-se depois que esta retirada causou um completo desequilíbrio ecológico, porque os Masai eram parte integrante ao equilíbrio ecológico daquelas áreas protegidas.

            BENSUAN e GONÇALVES (2001) in: LEUZINGER (2002, p.66), alertaram para o caráter nacional que permeia o modelo de preservação/conservação, como na construção desse pensamento no Brasil:

 

Em um país como o Brasil, cuja vasta biodiversidade deriva dos modos de vida de sua vasta sociodiversidade, é fundamental superar as limitações do modelo “cercar para preservar” e considerar, de forma séria, o papel das populações humanas nos processos mantenedores de diversidade biológica, levando em conta o bem-estar das gerações presentes e futuras.

 

            Parece que a comunidade de entorno vive uma situação de invisibilidade social, análoga a dos garis. Segundo COSTA F.(2002), os garis enfrentam essa “invisibilidade” porque não são conhecidos pela sociedade como sujeitos sociais, pois exercem uma função subalterna e não fazem parte do cenário capitalista/consumista.

MOSCOVITI (1974) in: CHAVEZ (2001), definiu um caráter novo ao naturalismo estabelecendo três idéias básicas:

1. O homem e a mulher produzem o meio que os rodeia e são por ele produzidos. A intervenção na natureza faz parte de sua condição humano-social. A forma como intervêm é que faz a diferença.

2. A natureza é parte da história da sociedade.

3. A relação cultura-natureza não ocorre no plano individual, mas coletivo. A sociedade pertence à natureza, sendo produto do mundo natural por um trabalho constante de invenção.

QUAMMEN (2006) faz uma definição precisa da dicotômica realidade enfrentada pelas comunidades de entorno X parque:

Um parque (...) costuma ser obra de um objetivo coletivo com drásticas ambivalências: sonhador, mas previdente; egoísta, mas altruísta; regional, mas importante para o planeta. Em contraste com um hino ou bandeira nacionais, um parque existe não só na dimensão simbólica como também nas dimensões concretas da geografia, da biologia e da economia. Possui habitantes vivos e fronteiras físicas. Tem benefícios e custos. Tem amigos, e às vezes, inimigos. (QUAMMEN, 2006, p.8)

 

            GUAPYASSU (2003) afirma ainda que as áreas de preservação devem promover o uso sustentável dos recursos naturais e oportunizar a melhoria da qualidade de vida da população existente.    

            Assim, considerando as relações humanas com o ambiente que os contém, há uma espécie de identidade ambiental que define o comportamento das populações em íntima relação com o ambiente próximo.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ARRUDA, R. S. V. “Populações Tradicionais” e a Proteção dos Recursos Naturais em Unidades de Conservação. In: DIEGUES, A.C.S. (org.) Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos, 2ed. São Paulo, HUCITEC/NUPAUB-USP/ANNA BRLUME, 2000.

 

CÂMARA, I. de G. As Unidades de Conservação e o Paradigma de Durban. In: Natureza & Conservação, vol 2, nº2, outubro 2004. Curitiba, Fundação o Boticário de Proteção à natureza, 2004.

 

CHAVES, M. do P. Socorro Rodrigues. Diálogo entre saberes na formação de professores do Parque Nacional do Jaú, Am. Disponível em:  http://nerua.inpa.gov.br/NERUA/11.htm   -  Acessado em 27. dez. 2004.

 

CONGRESSO NACIONAL/CÂMARA DOS DEPUTADOS (1993). Brasil, leis, decretos, etc. Substitutivo ao projeto de lei nº 2.892/93 que cria o Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

 

COSTA, Fernando Braga da. Garis: um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública, Tese de Mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia, USP, 2002.

 

COSTA, Patrícia C. Unidades de Conservação – Matéria-prima do Ecoturismo. São Paulo: Aleph, 2002.

 

COLCHESTER, M. Resgatando a Natureza: comunidades tradicionais e áreas protegidas  In: DIEGUES, A.C.S. (org.) Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos,2ed. São Paulo, HUCITEC/NUPAUB-USP/ANNA BRLUME, 2000.

 

FUNDAÇÃO SEADE, Sistema Estadual de Análise de Dados. Disponível em: www.seade.gov.br, Acessado em 10.set.2006

 

GUEDES, S. Z e ARAÚJO, S. A. Análise da Qualidade de Vida do Bairro Praia Brava – Itajaí (Sc), A Partir de Indicadores Sociais, disponível em http://www.geo.uel.br/revista/v13n2/5.pdf, Acessado dia 04.out.06.

 

GUAPYASSU, S. M. S.  Gerenciamento de áreas de proteção ambiental no Brasil. In: Natureza & Conservação, vol 1, nº2, abril 2004. Curitiba, Fundação o Boticário de Proteção à natureza, 2003.

 

GUHA, R. O Biólogo Autoritário e a Arrogância do Anti-Humanismo. In: DIEGUES, A.C.S. (org.) Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos, 2ed. São Paulo, HUCITEC/NUPAUB-USP/ANNA BRLUME, 2000.

 

HAUFF, S N.  Percepções de comunidades rurais sobre a implantação de Unidades de Conservação: subsídios para estabelecer zonas de amortecimento. In: Natureza & Conservação, vol 2, nº2, outubro 2004. Curitiba, Fundação o Boticário de Proteção à natureza, 2004.

 

IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Unidades de Conservação. Disponível em: www.ibama.sc.gov.br/oqsao.htm, Acessado em 16.jul.2002

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: www.ibge.gov.br, Acessado em 10.set.2006

 

KINKER, Sônia. Ecoturismo e Conservação da natureza em Parque Nacionais, Campinas, São Paulo: Papirus,2002.

 

LEUZINGER, C. Ecoturismo em Parques Nacionais: A compatibilidade entre a função preservação ambiental e a prática do ecoturismo em Parques Nacionais, Brasília: WD. Ambiental, 2002.

 

NARDES, Antonia Marilia Medeiros. Caracterização e Zoneamento Ambiental da Reserva Particular do Patrimônio Cultural do Parque Ecológico João Basso – Tese (Doutorado) – São Carlos: UFSCAR, 2005.

 

QUAMMEN, D. O Futuro dos Parques, Revista National GeographicBrasil, outubro, 2006.

 

SANTIL, F. e DECANINI, M. PROTÓTIPO DE ATLAS ELETRÔNICO PARA UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL, Revista Brasileira de Cartografia, n°54, dezembro, 2002.

 

TERBORGH, J. e SCHAIK, C.V. Por que o Mundo Necessita de Parques. In: TERBORGH, J. et. al. (Orgs.) Tornando os Parques Eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Paraná, Editora Universidade Federal do Paraná/Fundação Boticário, 2002.

 

_____________ e PERES, C.A. O Problema das Pessoas nos Parques. In: TERBORGH, J. et. al. (Orgs.)  Tornando os Parques Eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Paraná, Editora Universidade Federal do Paraná/Fundação Boticário, 2002.